CAFÉ DOS ANCIÃOS, O filme e a vida - Não há direito sem respeito que o preceda.

Assisti "Café dos Maestros", o filme argentino de Miguel Kohan, um documentário de poesia reverente, mas que parece um épico dos cabarés e alcovas. Há personas inusitadas. Uma cantora que se chama... Lágrima Rios! Cantores octogenários. Pianistas lendários. Orquestras algo impiedosas, nos acordes que esfaqueiam a medula.
Ali está o tango dos pobres, a música das calles, o híbrido de som negro com orquestra européia, o pano de fundo de romances violentos, tragédias de amor, ou apenas de ternuras saudosas, vestidas de percal. Há no tango uma virilidade harmônica, uma melodia dramática e a plasticidade teatral da dança. Por vezes não parece dança, mas se faz duelo. A mulher, com a rosa no cabelo. Fêmea fatal. O homem, com chapéu tombado à testa. Poeta cafajeste. No fundo, a aventura humana, com suas máscaras, desvendando seus mistérios.
As cordas gemem. O bandoneón ataca. Pousado no colo do músico idoso, aquela caixa sanfonada, batida em ritmos e esmagada em foles, é um drama à parte. Fechado, um cubo que guarda lágrimas. Aberto, uma serpente geométrica, que se retorce e derrama melancolias brilhantes.
Gustavo Santaolalla, músico argentino, é um anfitrião discreto, um fã, na verdade, deslumbrado pela oportunidade de imortalizar ídolos e gênios tantas vezes esquecidos.
Muitas lições no filme. O respeito à arte, acima de modismos de mercado e ocasião. A reverência aos velhos, apesar da tendência ao esquecimento, ao abandono, ao desprezo pelos idosos nessa sociedade pós-moderna que opta por uma adolescência eterna. Peter Pans idiotas, em que o mercado nos torna.
Vimos antes esse bonito respeito no filme "Buena Vista Social Clube", com Win Wenders trazendo ao mundo os grandiosos músicos cubanos. Temos visto isso nos preciosos trabalhos de Marisa Monte com a Velha Guarda da Portela. Mas me recordo do encantamento juvenil quando conheci essa mesma reverência em Caetano cantando Vicente Celestino (a dramática "Coração Materno"). Há também um belo, imortal e reverente registro de Chuck Berry, feito por Keith Richards. Claro, duas encrencas ambulantes reunidas, brigaram muito, mas o resultado é lindo. "Hail!Hail!Rock 'n' Roll" é o nome do documentário em que foi registrado o show-celebração promovido pelo guitarrista dos Stones.
Dentre os dez mandamentos entregues a Moisés está "HONRAR PAI E MÃE". O respeito aos anciãos foi, durante milênios, o pilar de muitas sociedades. O revival dos modismos orientais ou do mito do "bom selvagem" chega a ser ridículo, em alguns segmentos, hoje em dia, porque querem apenas o modismo exterior, mas desprezam, exatamente, um dos núcleos filosóficos positivos - nem todos o são - de tais culturas: o respeito à sabedoria e à pessoa dos velhos.
Em muitas culturas observa-se a coincidência entre senectude e sabedoria. Especialmente em culturas de tradição oral. Um provérbio africano diz: "Velho que morre, biblioteca que arde". O velho é o repositório da história, da cultura, da sabedoria acumulada por um povo. Promove a ponte entre o passado e o futuro.
Mas, hoje, infelizmente, despreza-se isso. E ao arrepio não só do bom senso, mas da própria lei. A Constituição Brasileira trouxe o caminho para o Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/03). É certo que o ordenamento buscou, em tempos de jogarem-se idosos na lata do lixo social, garantir o envelhecimento digno. Mas é evidente que cogitar pensões melhores, lugares nos ônibus, vagas em estacionamentos, não será o bastante para chegar-se ao que realmente interessa. Essas questões são acessórias. Fazem do idoso vítima (sim, vítima) da caridade social. O tratamos como elo mais fraco. E o são, realmente. Mas ou se resgata a autoridade e a voz do ancião, em nossa sociedade, ou sempre teremos essa postura piedosa, que põe no mesmo saco bichinhos em extinção, crianças órfãs e idosos. Só que estes últimos, deveriam ser os guias, os conselheiros, os patriarcas de tribo. Como a sociedade adolescente não os quer, já que, em geral, velhos são críticos, viveram muito, perguntam mais, desconfiam sempre... estamos desperdiçando nossos idosos. E os confinamos a uma invisibilidade coberta por eufemismos como "melhor idade", "terceira idade", obrigando-os a, quando muitos ainda poderiam estar produtivos em tantas áreas, passearem em excursões e fazerem ginástica na praça (isso na melhor das hipóteses). Ou então, o que é mais comum, a definharem em quartos e asilos infectos. De qualquer forma, guetos, sufocantes e desumanos estes, mais dourados aqueles, mas guetos, ainda.
Precisamos resgatar a auto-estima do idoso, coisa que a lei não faz. Coisa que demanda uma revolução no pensamento ocidental da descartabilidade rápida, de eletrônicos, softwares e pessoas.
O belíssimo filme "Chega de Saudade", que Laís Bodansky ambientou num salão de danças, mostra um idoso assim, de bem consigo, o idoso que baila, e que, bailando, ama, sofre, chora, é normal e se constrói como sujeito. Mantém sua identidade. No filme, há um casal quase adolescente que, frente ao vigor da senectude dançante, descobre-se decrépito. Uma lição.
As crises de autoridade familiar, de indisciplina escolar, de corrupção e desleixo estatal, passam pela crise do papel do ancião em nossa sociedade. Este que se envergonha da rejeição e esconde seus cabelos brancos - quando, por bom senso, por exemplo da tradição dos hoje tão reverenciados povos primitivos, por imitação da boa prática de culturas orientais, tão em voga, e até por ordem bíblica ( Levítico 19:32: "Diante das cãs te levantarás, e honrarás a face do ancião") - devia ser ouvido, saudado e amado.
Alguém poderá argumentar que nem todo idoso merece assim tanto respeito, porque pode ser um mau caráter, pode ser sido um jovem frívolo que acumulou maldade e desperdício. Concordo. Há Pinochets por aí. Aliás, ainda recorrendo à Bíblia, vemos que até isso é previsto. Salomão escreveu a condicionante: "Coroa de honra são as cãs, quando elas estão no caminho da justiça". Só pra lembrar: cãs significam cabelos brancos. Mas cabelos brancos, de per si, não operam santidade, é fato. Os perdulários, de bem e de bens, costumam pagar caro na idade avançada. Desprezaram filhos, abandonaram esposas, desperdiçaram fortuna. Não podem pretender serem amados na idade provecta, por filhos que antes renegou. Numa mesa de audiências, tenho visto, pode-se impor a pensão, o sustento, certos deveres materiais. Mas amor, ah, amor não se impõe.
O que na vida do jovem de hoje se constrói é que lhe permitirá o respeito dos mais novos, na idade avançada. E, infelizmente, temos observado uma juventude apressada, perdulária, desperdiçando-se em pródigas baladas... E aí, voltamos ao mesmo ponto. O jovem de hoje menos errará, melhor caminhará, se receber as luzes do ancião, cujos caminhos lhe podem tanto ensinar.
Por isso, senhores operadores do Direito, façamos aí nossas ações para garantir o transporte gratuito aos idosos, que o Ministério Público aja para impedir o não cumprimento da preferencialidade ao idoso em filas, estacionamentos e atendimentos, exijam os governos providências para impedir os abusos dos planos de saúde, que os juízes condenem instituições de saúde que negligenciam o atendimento aos idosos, que as repartições respeitem as prioridades legais, que os motoristas de ônibus sejam repreendidos quando deixam velhinhos abandonados nos pontos... e que sejam prazerosas as viagens de melhor idade, que tenham bom repertório os bailes de terceira idade, que seja saudável o tai chi chuan pelas praças, mas, que acima, de tudo, construamos genuíno respeito, reverência e aprendizado.
Que os velhos não precisem ter vergonha da sua velhice. E que aprendamos com eles, os registremos em lentes imortais de nossos olhos, de nossos diários, de nossos livros de família, de histórias à beira da mesa do almoço. Assim como em "Café dos Maestros". Que sejam, nossos idosos, nossos mestres. Não os objetos da nossa piedade. Deixarei uma sugestão. Neste ano que se encerra, meus pais contaram, ambos, 08 décadas de existência. Redigi para a família pequenas biografias contando um pouco de suas lutas, seus dramas, suas vitórias. Importante para os jovens, netos, bisnetos, saber que aquele casal de anciãos tem tanto a ensinar. Perceber que cada ruga daquela é uma vivência real, uma luta na montanha do Senhor dos Anéis. Importante para os jovens o aprendizado de que não foram eles, jovenzinhos imberbes, ou a Microsoft ou a Nintendo que inventaram o mundo. O mundo é mais velho. Como dizem, ainda os africanos, "nossos pais o viram primeiro". Por isso nos deram estirpe e linhagem. Aprendamos com eles.
País de idosos que seremos, construamos desde já o respeito que, certamente, gostaremos, nós mesmos, de receber. Isso só será possível se passarmos a ver o idoso não como o peso social a ser carregado por todos. Mas sim como o patriarca sábio a ser conduzido em sua liteira de dignidade. Embora não possa mais caminhar à frente da tropa, porque as pernas não mais suportam, embora não mais enxergue tão longe, porque os olhos se vão, ainda traz as palavras mais certeiras, porque vindas de mais longe, banhadas na intempérie, nos ventos da viagem.
E quando o idoso sequer palavra tiver, pensemos nele como um símbolo. Aprendamos a ser cuidadores, tarefa tão penosa e difícil, mas tão superior moralmente ao desprezo frio e ao abandono cruel. Que aquele idoso, enquanto puder estar conosco à mesa, ou numa poltrona da sala, que ali permaneça, como um poste de luz. Certamente enxergaremos melhor.
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Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 15h02